Samba · São Paulo

Dona Ivone Lara completaria 100 anos: como seu legado redefine o samba feminino hoje

Compositoras e sambistas de todo o Brasil falam sobre a influência da mestra que abriu portas que ainda estão sendo atravessadas por novas gerações.
CB
Carla Beatriz — Samba e MPB
28.06.2025 · 8 min de leitura

Dona Ivone Lara completaria 100 anos em abril de 2025. Falecida em 2018, ela foi a primeira mulher a ter um samba enredo aprovado pela Estação Primeira de Mangueira — em 1965, quando as mulheres simplesmente não compunham samba enredo. Não porque não soubessem. Porque não eram deixadas.

Para marcar o centenário, o BeatBR conversou com seis compositoras e sambistas de diferentes gerações sobre o que o legado de Dona Ivone significa para elas hoje.

"Ela abriu a porta. A gente ainda está entrando"

A compositora Xênia França, 38 anos, foi direta: "Dona Ivone não foi reconhecida em vida da forma que merecia. Ela passou décadas sendo a 'mulher do Mangueira' antes de ser reconhecida como a compositora que era. Isso ainda acontece com a gente."

"Quando eu apresento um samba numa roda, ainda tem homem que olha para o lado esperando o compositor aparecer. Cem anos depois de Dona Ivone, ainda tem isso." — Xênia França, compositora

O samba feminino hoje

A cena do samba feminino nunca foi tão rica. Compositoras como Teresa Cristina, Roberta Sá, Dorina e dezenas de nomes menos conhecidos estão produzindo um samba que dialoga com a tradição sem se prender a ela. Mas o acesso aos espaços de poder — as diretorias das escolas de samba, as gravadoras, os programas de televisão — ainda é desproporcionalmente masculino.

Dados levantados pelo BeatBR mostram que, das 14 escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, apenas duas têm mulheres em posições de direção artística. Das 20 músicas mais tocadas nas rádios de samba em 2024, 17 foram compostas exclusivamente por homens.