Em março de 2025, MC Duda do Alemão se apresentou para 1.200 pessoas em uma casa noturna de Lisboa. Não havia nenhum brasileiro na plateia — ou quase nenhum. O público era português, francês, espanhol, com alguns alemães e holandeses. Todos cantavam as letras em português, com sotaque carioca.
Duda tem 22 anos, nasceu e cresceu no Complexo do Alemão. Nunca fez curso de inglês. Nunca teve empresário internacional. Chegou à Europa através do TikTok, onde um vídeo seu viralizou em 2023 e acumulou 40 milhões de visualizações em três semanas.
O funk carioca já não é novidade no exterior — Anitta e outros artistas mais comerciais abriram caminhos. Mas o que está acontecendo agora é diferente. Artistas das favelas, com produções caseiras e letras que falam de realidades muito específicas do Rio de Janeiro, estão encontrando audiências globais sem passar pelo filtro da indústria fonográfica tradicional.
"Eu nunca tentei fazer funk para gringo. Fiz funk para a minha comunidade. Aí o gringo chegou sozinho." — MC Duda do Alemão
Conversamos com promotores de eventos em Lisboa, Paris e Berlim. A resposta foi consistente: o funk carioca original — não o funk pop, não o funk comercial — tem uma energia e uma autenticidade que o público europeu, saturado de produções polidas, está buscando ativamente.
"É o mesmo fenômeno que aconteceu com o reggae jamaicano nos anos 70, com o hip-hop americano nos anos 90. A periferia cria, o mundo descobre", disse um promotor de Lisboa que pediu para não ser identificado.
Há uma ironia amarga nessa história. Artistas que são ignorados pelas grandes gravadoras brasileiras, que têm dificuldade de tocar em rádios nacionais e que raramente aparecem em programas de televisão, estão sendo reconhecidos internacionalmente antes de serem aceitos em casa. É um padrão que se repete na história da música brasileira.
MC Duda do Alemão tem 40 milhões de visualizações no TikTok. Ainda não foi convidado para o Domingão do Faustão.